Sexta-feira, 27 de Junho de 2008

A BRINCAR ...SEM PECAR

         A BRINCAR ..... SEM PECAR

 

    A propósito de eu ter falado da relativização do valor da vida, alguém “provocou”, perguntando o que eu queria dizer com isso....Eu faria muito melhor em estar calado e não me sucediam coisas destas...Por alguma razão o povo diz que o silêncio é de ouro. Quem ler isto identifica perfeitamente a quem respondo, não é preciso dizer o nome do provocador.... Mas vamos lá á ingrata tarefa.

     Para preparação de uma resposta que gere compreensão da minha posição, sugiro a leitura prévia do meu post ” PILULA FINAL”, mas, e para além disso, todos sabemos mais ou menos que a vida tem sido considerada nos “areópagos do cinismo” internacional como um bem, um direito, um valor absoluto. Depois do discurso, é sabido que estes senhores levantam as nádegas dos seus fofos assentos e vão para os seus gabinetes tomar decisões que matam rápida ou lentamente milhões de pessoas... Para quem segue minimamente os acontecimentos mundiais, falar disto é uma espécie de redundância,... fiquemos por aqui.

     Consideremos antes os fazedores e propagandistas do politicamente correcto, da ética oficial. Também eles consideram a vida algo de absoluto não “relativizável”. Assim, a vida de qualquer pessoa vale o mesmo que a de qualquer outra, e isto é um dogma inultrapassável. Conta-se a história, que não sei se é verdadeira, que, tendo alguém perguntado ao Papa se, num parto fosse necessário escolher entre salvar a vida da mãe ou do nascituro, por qual se deveria optar. O Papa respondeu: Salvem os dois. Não sei nem interessa se a história é verdadeira, o que interessa é que este modo de ver as coisas tem sido propalado pelos media e absorvido pelos bem intencionados do mundo ocidental e cristão.......Uma vida não é trocável por outra....nem pensar.....

    A história que conto a seguir resulta do naufrágio de um grande navio, do qual sobreviveram apenas dois homens: um era um médico, grande cientista, director de um programa de pesquisa contra o cancro de que muito se esperava.... O outro, um conhecido barão da droga, comandante de gangs de traficantes e assassinos, que apenas estava em liberdade por inoperância dos poderes judiciais. Nessa altura eu era chefe de uma equipa de salvamento marítimo, constituída por um helicóptero devidamente equipado para estes casos e com a respectiva tripulação de especialistas. As ordens e decisões cabiam-me a mim, toda a responsabilidade me estava atribuída. Fomos mandados para o local do naufrágio com a missão de salvar aqueles dois náufragos. Quase chegados ao ponto do desastre verificamos que os náufragos estavam bastante afastados um do outro e o meu piloto disse-me:

    “Com o mar a esta temperatura morrem por hipotermia em dez minutos. Vamos levar cinco minutos a chegar lá e colocarmo-nos em posição e mais cinco minutos a proceder á operação de resgate da água.....Salvar um significa condenar o outro.... O que é que faço, vou para o lado do médico ou para o lado do gangster? Preciso da resposta em menos de um minuto...senão.... nada a fazer”

     Eu tinha um minuto para pensar, segundo a ética vigente e os valores propalados. Ao fim de um minuto tomei a decisão e disse ao piloto:

  “ Está decidido, volta para trás, deixa-os aí aos dois, volta para a base”

E nessa noite dormi descansado e contente, não tinha cometido o pecado de trocar uma vida por outra, não tinha relativizado.... Para mim eram ambas valores absolutos .  

 

publicado por mochovelho às 22:04
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5 comentários:
De sunshine a 27 de Junho de 2008 às 22:58
ESte creio que vai ser o texto mais dificil que alguma vez comentei, mas tocou-me cá dentro. Muito!! Mas prepare-se que o seu post pode chocar mentes, mas sabe disso não é? creio que sim.
Em primeiro lugar, parabéns pela coragem de relatar algo dificil de fazer sair cá para fora. Depois estou de acordo em relação ao que disse nos dois primeiros parágrafos. Nada a acrescentar.
A história arrepiou-me. Fez-me reflectir. Nenhuma vida deve ser superior a outra, todos somos pessoas e não é a nossa profissão ou dom que faz necessáriamente de nós uma pessoa melhor do que outra.
Contudo estava a pensar que sou adepta da pena de morte em determinadas circunstâncias, porque a liberdade do outro acaba onde a minha começa. Então já estou a violar o principio que disse que concordava. Isto não é fácil.
Não salvar nenhuma vida em termos de escolha não me seria a mim possivel, Imagino um acidente rodoviário, imagino uma mulher grávida e uma criança. Qual a prioridade? Existe uma prioridade a que se deve atender, o lema é salvar a vida, dando o nosso melhor.
Nunca poderia não actuar apenas por pensar que estaria a ser injusta com uma das pessoas.
ATENÇÃO, ISTO NÃO É UMA CRITICA Á SUA OPÇÃO, NÃO JULGO GRATUITAMENTE, E SÓ PODE AVALIAR QUEM TEM COMPETÊNCIA PARA O FAZER!
Apenas me fez reflectir em mim, pensando que se salvam vidas, condenando outras, quando se determinam as prioridades de actuação, e em como a vida pode ser injusta. Em como fica sempre um sabor amargo pela escolha. Foi esse sabor que não lhe ficou!
Por isso dormiu tranquilo. Beijinhos

De mochovelho a 28 de Junho de 2008 às 13:09
Querida amiga..... repare que , a história que conto é um "charge" , uma "demonstração" pelo absurdo. Na vida real eu salvaria o médico, faria a minha escolha , não tenha dúvidas...não sou Deus , nem estou sempre certo mas não é possível viver sem fazer escolhas. Eu apenas quero recordar ás pessoas que é impossível viver e fazer qualquer coisa sem fazer escolha e arcar com as responsabilidades....e uma dessas escolhas relaciona-se com a vida de alguém ou de milhões....Não podemos fugir a isto , senão caímos no absurdo da situação que eu criei...Morrem os dois e fica tudo bem????. Portanto a vida não é um bem absoluto....todos os dias , a nossa e a dos outros é objecto da escolha de alguém, ou de um acaso que não compreendemos. E neste aspecto, acho melhor "chamarmos os bois pelos nomes" do que andar a iludir-nos a nós próprios e aos outros. Um abraço.
De NEOABJECCIONISMO a 29 de Junho de 2008 às 21:27
Estou surpreendido que refira uma provocação e eu não vejo de onde venha. mas como tenho andado distraído ultimamente, não me admiro que exista e eu não tenha visto.
A sua racionalidade posta à prova, em 1 minuto, é de uma frontalidade espantosa. Num minuto há quem possa destruir o planeta.
No fundo, o que temos, o que nos fica é a vida. Temos da vida, deste mexer de nós, deste pensar de nós, como um absoluto da nossa racionalidade, um conceito feroz que nos permite colocá-la sempre em dois pratos de uma só balança.
A apreciação do risco é subjectiva, por vezes mórbidamente subjectiva e não obedece a critérios de humanidade objectiva.
Se houver o meu filho e outro eu salvo o meu filho, ainda que o meu filho seja um bandido.
É aí que entra a sua relativização da vida. Os critérios de prioridades sendo de avaliação subjectiva, chocam com outros subjectivismos da mesma situação. Não é possível ser Grego e Troiano. As sociedades modernas tentaram resolver essa dicotomia. Mas como? se você procura, defende a integração de famílias ciganas num bairro de classe média (Isto é um exemplo) que não têm princípios de urbanidade, que são conflituosos, e que alguns da ética dos principios até condenam quando outros pretendem dar formação a essas famílias problemáticas. Dar formação de modos de viver a uma família sem hábitos urbanos e de convivência, é racismo?
Gostaria de dizer que discordo da pena de morte, em qualquer circunstância, como parece ter defendido a minha amiga Sunshine. Não faz o perfil dela. A justiça dos homens é falível, é manipulável, não podemos, nem devemos correr riscos incorrigíveis.
De mochovelho a 30 de Junho de 2008 às 21:50
Acho que o meu caro aceita como "natural" a relativização da vida... repare que eu digo natural, não digo normal..... Quer dizer...estamos de acordo e, é exactamente por essa razão que não compreendo como se opõe de modo absoluto á pena de morte.... como você diz " em qualquer circunstância". Em certos estados dos USA, um individuo , ao cometero terceiro " crime" por mais leve que este seja é automáticamente condenado a 25 anos de prisão. Noutros estados não admitem a pena de morte mas aceitam a prisão perpétua.... os condenados saem da prisão ou mortos ou muito velhos. e, se em ambos os casos consideram que o indívido é irrecuperável para uma vida social aceitável, o que é que eles ficam a fazer dentro de grades????? Isso é simplesmente desperdiçar recursos , desperdiçar o dinheiro dos contribuintes.....KKKKK ...Isto sim é relativizar a vida humana.
De NEOABJECCIONISMO a 30 de Junho de 2008 às 23:10
Mocho Velho.
Mas tudo isso que aponta como sendo a relativização da vida humana, se assenta no pressuposto que, numa situação de penas por crimes, a morte é mais proficua, por que imediata, sem custos prolongados, do que a morte lenta da perpétua, onde a vida apodrece e se esvai dolorosamente, dir-lhe-ei que o sistema de prisões é um absurdo que não tem em vista recuperar ninguém. Condena-se. O juiz cumpriu a sua missão e parte para outra. Na prisão é todo um outro mundo, surrealista ás vezes, absurdo, onde as regras são as do mais forte. Na pura teoria dos conceitos temo que a sua relativização esbarre numa teia complexa de outros conceitos afins ou contraditórios.
A morte inviabiliza a continuação da procura da verdade. Estou a lembrar-me de Caryl ChesmanMocho Velho.
Mas tudo isso que aponta como sendo a relativização da vida humana, se assenta no pressuposto que, numa situação de penas por crimes, a morte é mais proficua, por que imediata, sem custos prolongados, do que a morte lenta da perpétua, onde a vida apodrece e se esvai dolorosamente, dir-lhe-ei que o sistema de prisões é um absurdo que não tem em vista recuperar ninguém. Condena-se. O juiz cumpriu a sua missão e parte para outra. Na prisão é todo um outro mundo, surrealista ás vezes, absurdo, onde as regras são as do mais forte. Na pura teoria dos conceitos temo que a sua relativização esbarre numa teia complexa de outros conceitos afins ou contraditórios.
A morte inviabiliza a continuação da procura da verdade. Estou a lembrar-me de Caryl Chesman
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