Terça-feira, 1 de Julho de 2008

SUICIDIO

   A minha questão sobre o suicídio, ou,  para ser um pouco mais verdadeiro as minhas respostas aos comentários tem provocado certas reacções que, por muito educadas que sejam, denunciam oposição declarada.

 ... Mas, quando chamam ao acto de suicídio uma cobardia como se o fosse sempre, sinto dentro de mim uma pequena revolta e queria conversar amigavelmente com os que assim pensam:

Vou fazê-lo em duas fases...Esta é a primeira. Na segunda farei os meius comentários e entender-nos-emos bastante melhor, espero eu......

 

      Em 1968, estando a então Checoeslováquia sob o arbitrário domínio soviético, Jan Palach, um estudante universitário de 22 anos de idade, imolou-se pelo fogo, em plena praça de S. Venceslau na hora de maior movimento. O seu suicídio, de acordo com a nota que deixou foi um protesto contra a falta de liberdade do seu povo e do domínio soviético.  Fez o que pode, lutou como achou que o podia fazer..... A noticia correu mundo, e, de certo modo Jan Palach atingiu alguns dos seus objectivos...pelo menos chamou mais uma vez a atenção da comunidade internacional, sobre a insuportável dominação soviética dos países da então Europa de leste

   

  John X, militar fuzileiro,  ferido gravemente numa patrulha, não foi deixado para trás pelos seus companheiros. Estes improvisaram uma padiola e transportavam John X , á vez, fugindo de um inimigo numeroso que os perseguia e se aproximava cada vez mais. John X tinha a consciência do esforço que todos estavam a fazer para o salvar e do enorme risco que estavam a correr.... morreriam todos sob as armas de um inimigo implacável. Pediu que o deixassem para trás, pediu que acabassem com ele...um tiro de misericórdia, mas nenhum dos seus companheiros admitia sequer essa hipótese, mesmo já quase ouvindo os passos dos implacáveis perseguidores. Num dos raros momentos de pausa naquela corrida pela vida, um dos companheiros de John adormeceu ao lado dele. Pouco depois todos  se sobressaltaram com um tiro. John , havia tomado a arma ao seu companheiro adormecido e tinha posto fim á sua vida, dando assim, ao resto da patrulha uma muito maior possibilidade de se salvarem de um massacre....

 

     Jim K, casado, pai de dois filhos, olhou para as folhas de papel que tinha á sua frente, que denunciavam bem o catastrófico grau de falência a que chegara a sua empresa... seria pouco provável não sofrer prisão com uma situação daquelas. Pensou na sua mulher Mary e nos seus filhos. Pensou na Shirley, sua amante , na luxuosa casa que lhe havia dado, nos carros e vida de luxo....estava aí uma das causas daquela situação financeira desastrosa.  De que iriam viver Mary e os garotos, quando a situação rebentasse??? Ainda por cima , Mary, que tudo tinha sempre feito por ele, iria saber que tudo se devia á sua infidelidade.....O coração apertava-se cada vez mais...o sentido de culpa avolumou-se no seu espírito já esmagado pela responsabilidade. O que podia ele fazer.... se ao menos a situação resultasse de um desastre financeiro, um erro de cálculo, mas não, estava ali, preto no branco, um enorme volume de despesas com outra mulher.......Pensou, apertou a cabeça entre as mãos e abriu a gaveta da secretária onde tinha o seu .38. Uns momentos mais tarde a sua secretária particular, do lado de lá do da porta do gabinete, sobressaltou-se com o estrondo.

 

      Kirk era o que se pode chamar um inglês tranquilo. Os seus pais já tinham falecido e ele vivia agora sozinho naquela casa que lhe parecia grande demais. Não tinha casado, ....ás vezes pensava que não o fizera por egoísmo , porque na sua opinião o casamento era uma responsabilidade. A sua vida resumia-se a circular entre o emprego e a sua casa e a falar o mínimo possível com a empregada doméstica que lá ia periodicamente fazer limpezas e recolher a roupa suja...Mesmo quando ocasionalmente ia ao “pub”, no meio da galhofa geral, ele tinha apenas palavras para pedir ao “barman” a bebida do costume.  Com o chegar dos cinquenta anos , habituou-se a dar longos passeios ao longo do cais e a contemplar aquele mar do norte sempre rebelde....Ás vezes pensava que só tinha um amigo: aquele mar sem fim. Começou a pensar na sua vida...o que ela era e quais as suas perspectivas, Levando em conta a sua misoginia, as perspectivas não lhe pareceram agradáveis....mas há coisas que não se podem ultrapassar. Um dia saiu para o passeio do costume no cais , e nunca mais voltou.......

 

 

    

publicado por mochovelho às 21:40
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7 comentários:
De Lala a 2 de Julho de 2008 às 14:29
Olá Mocho.
Convidaste a aki estou eu.
Para mim o suicidio, como já tinha dito no blog do meu amigo Neo, é uma coisa mt séria, uma forma de protesto, um meio de chamar a atenção, uma fuga aos problemas k nos assolam em algum momento da vida.
Pode ser k não seja a atitude mais correcta, mas ao menos é uma atitude.
Kem tem a coragem ou cobardia, como lhe keiramos chamar, de se suicidar, esta a tomar uma atitude, não esta a aceitar pacificamente akilo k lhe atormenta.
Bjinhos.
Lala
De mochovelho a 2 de Julho de 2008 às 14:33
Mas , como vê, nestas situações envolvendo seres humanos, feliz ou infelizmente ( não sei) , há todas as situações , todos os matizes. Isso torna cada caso um caso diferente , o que dificulta o estabelecimento de valores absolutos como muitos querem fazr. Um abraço!
De Bárbara a 2 de Julho de 2008 às 15:58
Não gosto de qualificar comportamentos humanos. Julgar é algo sério, triste e tenho pavor de fazê-lo. entretanto, o que consigo perceber a respeito do suicídio, pela proximidade que já tive com algumas pessoas que tentaram morrer, é que o suicídio é um ato de carência. E pode ser carência de compreensão, de amor, de companhia, de saída, de conhecimento, de perspectiva, de coragem, de cuidado, de amor-próprio, de paz... O mundo está tão carente! É por isso que gostamos tanto dos bebês de colo, porque queremos estar em seus lugares.
De mochovelho a 2 de Julho de 2008 às 17:22
Gostei muito dessa dos bébés......Nunca tinha pensado nisso e é uma ideia com pernas para andar..... Um abração
De NEOABJECCIONISMO a 2 de Julho de 2008 às 16:43
Mocho Velho.
E tantas e complexas são as situações que levam a ideias suicidiárias. Cesar Pavese, Fernando Pessoa, mas o anónimo a quem a droga levou o filho ainda criança e que lutou em continuo desespero para o recuperar, que gastou tudo, se endividou, empenhou a família que restava e quando após sucessivas tentativas falhadas, uma vez mais o perdeu, quando sentiu que tinha acreditado pela última vez, sozinho, na solidão de tudo o que havia para lá do seu próprio infinito, esgotados todos os auxílios, fechadas todas as portas, abriu a torneira do gás e foi-se.
A Bárbara aborda o essencial do tema com grande lucidez.
Há quem o premedite. Há quem o vá instalando no consciente. E há quem o assuma repentinamente, num súbito último gesto.
É um tema , este seu, para profunda reflexão sobre que atitude tomar, nós os que estamos confortavelmente instalados, do lado de cá do problema, e condenamos o gesto como irreflectido, como sendo sempre possível outra solução. Mas qual?
Pagar as dividas do desgraçado e internar o filho numa clínica, ou num hospício. Quem estaria, esteve, disposto a fazê-lo?
Parar a guerra para que o soldado ferido fosse socorrido? Qual o beligerante que o faria?
Obrigado, mochovelho pela reflexão
De mochovelho a 2 de Julho de 2008 às 17:28
Pois é isso que me aborrece , e você di-lo com clareza.... nós , que felizmente neste momento estamos do lado de cá, não nos coibimos de juizos aligeirados sobre pessoas que se viram compelidas a soluções tão drásticas...não posso com isso.
De NEOABJECCIONISMO a 2 de Julho de 2008 às 19:09
mochovelho.
E que se vêm compelidas. Amigo. hoje, a cada momento, "e não há quem lhes queira valer".

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