Quarta-feira, 2 de Maio de 2007

O ENSINO EM PORTUGAL

 

A TRAGICOMÉDIA DO ENSINO EM PORTUGAL

     PARTE II - ACTUALMENTE

  No meu tempo , as coisas estavam mal, essencialmente, porque a educação ligada ao estudo, á frequência de um estabelecimento de ensino era um luxo, um privilégio, política que não necessitaremos certamente de comentar.

1-ENSINO SECUNDÁRIO

  Hoje em dia , temos  escolaridade obrigatória até ao 9º ano ( 4 anos de escolaridade básica + 5 anos de secundário). Para além do 9º ano temos a continuação do ensino secundário ( antigo Liceal), por mais três anos , respectivamente o10º e 11º e seguidamente o 12º para quem queira ingressar no ensino superior. Comecemos por analisar estes 12 anos de estudos preliminares.

  A frequência escolar, até ao 9º ano inclusive é obrigatória e é simplesmente uma farsa infame. PORQUÊ??? Porque sendo as nossas leis muito estritas no que respeita ao trabalho infantil há que manter as crianças e adolescentes em qualquer lado, pelo menos até aos 15 anos de idade......daí a obrigatoriedade do 9º ano. Claro que, como todo o sistema educacional percebe isto, não há preocupação em saber se os alunos aprendem ou não alguma coisa. Para um professor do ensino oficial reprovar um aluno até ao 9º ano, quase que é preciso autorização ministerial.....( se calhar é mesmo...kkkkk)! Portanto a estes alunos pouco ou nada é exigido..... estamos cheios de analfabetos com o 9º ano.

  Muitos, (diria a maior parte, ficam por aí....), outros seguem para o 10 º e 11º e alguns para o 12º, especialmente se tencionam continuar com o ensino superior. O 12º ano é , na minha opinião, pelo menos nas especialidades de ciências, ( matemática, física e química), bastante exigente. O salto dos anos anteriores para o 12º é enorme.... em conclusão, andamos 11 anos a pedir nada ou quase nada aos alunos, para de repente lhe pormos á frente uma matéria difícil, ( pelo menos quando comparada com o que estavam habituados), e nada lhes perdoarmos. Isto tem como consequência que as notas dos exames finais do 12º ano sejam arrasadoramente más.... Todos os anos temos a tragédia das classificações para entrada na faculdade........

2- ENSINO SUPERIOR

   No ensino superior de base temos os graus de bacharelato e licenciatura, mas, em vez de entrarmos nesse assunto vamos explicar "umas coisas" : até aqui á menos de quinze anos atrás, só existiam em Portugal, estabelecimentos de ensino superior de carácter público, ou seja, o ensino superior estava vedado á iniciativa privada. Com o justo desenvolvimento das ambições das pessoas em termos de educação, as universidades públicas deixaram de ter capacidade de resposta e isso deu origem a várias coisas:

A - As universidades públicas introduziram o "número clausus",  por exemplo, o IST, decidiu que não aceitaria , por ano, mais de 100 novos alunos em engenharia mecânica, e que esses novos lugares estavam reservados aos 100 alunos mais altamente classificados que concorressem para entrar....só os melhores tinham lugar portanto. Isto dá origem a que, por exemplo, um aluno que concorre com uma classificação do 12º ano de 15.6 V ainda entra porque é o centésimo na escala de valores dos concorrentes, mas um que tem "apenas" 15.5 já não tem lugar...( a escala de classificações em Portugal é de 0 a 20)

B - Isto deixava deixava dezenas de milhar de potenciais alunos, fora das faculdades, o que deu origem a que o governo desse luz verde á instalação de universidades privadas , que absorvessem esse excesso. Ora , á média de 560 $R, por aluno e por mês, isto era um excelente negócio para os privados, e as universidades e institutos superiores privados apareceram como cogumelos.... mas infelizmente cogumelos venenosos, como veremos adiante.

C - A maior parte das novas universidades privadas dedicaram-se a cursos onde é apenas necessária uma sala, lápis e papel, ( e, se possível , um professor, já agora....kkkkk), como as humanísticas, direito, etc. Só algumas se arriscaram a alguns cursos de engenharia, (daqueles que não exigem laboratórios), e quanto ás ciências médicas nem pensar........Por outro lado, praticamente não apresentam professores residentes, tendo um corpo docente recrutado a tempo parcial noutros locais , que só lá vai debitar umas horas de aula. Como em qualquer actividade privada normal, e sem que isso escandalize alguém, a ideia do lucro é prevalecente.

B - Ao contrário de muitos países em que o ensino universitário privado é que goza de prestigio, ( Yale, Harvard, MIT, Oxford, Cambridge....) e onde as famílias fazem significativos sacrifícios para mandar os filhos para essas universidades, quando os podiam mandar , quase de graça, para as universidades estatais, aqui passa-se exactamente o contrário : as famílias rezam para que os filhos sejam suficientemente bons estudantes, para que tenham boas classificações e consigam entrar numa universidade pública!!! Porque tem vantagens como : não ter de pagar as altas propinas mensais de uma escola privada, e ainda por cima, um individuo que se apresenta no mercado de trabalho com um diploma passado por uma universidade oficial tem muito mais credibilidade que aquele que apresenta um diploma passado por uma entidade privada.

D - As universidades privadas sofrem á partida de um tremendo "handicap" : Teoricamente recebem os piores alunos da população estudantil, porque os melhores conseguiram entrar nas públicas. Portanto o material de trabalho já tem pouca qualidade "per si". Por outro lado, não são completamente independentes nos seus juízos, porque são pagos pelos alunos....Isto não quer dizer que cometam a desonestidade de vender diplomas, ...não é isso que queremos dizer, mas sim que lhes é psicologicamente mais difícil a prática de determinada ética.

E - Entretanto verifica-se um "ataque" das universidades públicas ás privadas. As universidades públicas são subsidiadas pelo estado como sabemos e, uma das formas desse subsidio é em função do número de alunos....um tanto por aluno e por ano. As universidades públicas debatiam-se com falta de verbas para as suas tarefas de investigação, programas de doutoramentos, contratação de docentes, etc. Uma das formas que viram para obter essas verbas foi, é claro, aumentarem o "número clausus". Tendo mais alunos , teriam mais verbas. Todavia, ao fazer isso arriscaram-se a debilitar a sua qualidade.

          Muito mais haveria a dizer, no entanto ficamos por aqui, com a noção de que, como consequência destas políticas, este pobre cantinho ficou inundado de licenciados e não sabe o que lhes há-de fazer....mas isso fica para a PARTE III

publicado por mochovelho às 21:31
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4 comentários:
De Anónimo a 20 de Junho de 2007 às 17:04
O País está em crise educativa generalizada, resultado das políticas governamentais dos últimos 20 anos, que empreenderam experiências pedagógicas malparadas na nossa Escola. Com efeito, 80% dos nossos alunos abandonam a Escola ou recebem notas negativas nos Exames Nacionais de Português e Matemática. Disto, os culpados são os educadores oficiosos que promoveram políticas educativas desastrosas, e não os alunos e professores. Os problemas da Educação não se prendem com os conteúdos programáticos ou com o desempenho dos professores, mas sim com as bases metódicas cientificamente inválidas.

Ora, devemos olhar para o nosso Ensino na sua íntegra, e não apenas para assuntos pontuais, para podermos perceber o que se passa. Os problemas começam logo no ensino primário, e é por ai que devemos começar a reconstruir a nossa Escola. Recomendamos vivamente a nossa análise, que identifica as principais razões da crise educativa e indica o caminho de saída. (http://educacao-em-portugal.blogspot.com/) Em poucas palavras, é necessário fazer duas coisas: repor o método fonético no ensino de leitura e repor os exercícios de desenvolvimento da memória nos currículos de todas as disciplinas escolares. Resolvidos os problemas metódicos, muitos dos outros, com o tempo, desaparecerão. No seu estado corrente, o Ensino apenas reproduz a Ignorância, numa escala alargada.

Devemos todos exigir uma acção urgente e empenhada do Governo, para salvar o pouco que ainda pode ser salvo, as nossas melhores universidades públicas.
De José Carrancudo a 20 de Junho de 2007 às 17:06
O País está em crise educativa generalizada, resultado das políticas governamentais dos últimos 20 anos, que empreenderam experiências pedagógicas malparadas na nossa Escola. Com efeito, 80% dos nossos alunos abandonam a Escola ou recebem notas negativas nos Exames Nacionais de Português e Matemática. Disto, os culpados são os educadores oficiosos que promoveram políticas educativas desastrosas, e não os alunos e professores. Os problemas da Educação não se prendem com os conteúdos programáticos ou com o desempenho dos professores, mas sim com as bases metódicas cientificamente inválidas.

Ora, devemos olhar para o nosso Ensino na sua íntegra, e não apenas para assuntos pontuais, para podermos perceber o que se passa. Os problemas começam logo no ensino primário, e é por ai que devemos começar a reconstruir a nossa Escola. Recomendamos vivamente a nossa análise, que identifica as principais razões da crise educativa e indica o caminho de saída. (http://educacao-em-portugal.blogspot.com/) Em poucas palavras, é necessário fazer duas coisas: repor o método fonético no ensino de leitura e repor os exercícios de desenvolvimento da memória nos currículos de todas as disciplinas escolares. Resolvidos os problemas metódicos, muitos dos outros, com o tempo, desaparecerão. No seu estado corrente, o Ensino apenas reproduz a Ignorância, numa escala alargada.

Devemos todos exigir uma acção urgente e empenhada do Governo, para salvar o pouco que ainda pode ser salvo, as nossas melhores universidades públicas.
De Zé da Burra o Alentejano a 12 de Setembro de 2007 às 15:55
Vou limitar o meu comentário ao Ensino Básico, ao facto de já ser de 11 anos e passar em breve para 12.

Se a escolaridade básica é de 11 ou 12 anos, isso quer dizer que para se ser varredor de ruas, carregador, calceteiro, carteiro, distribuidor de publicidade, distribuidor de bilhas de gás, pedreiro, canalizador, arrumador de automóveis no barco que atravessa o rio, enfim, todos têm que se ter esses anos todos de escola. Para quê? A única vantagem que vejo é a de arranjar emprego para mais alguns milhares de professores (lá se vai o esforço para equilibrar as contas do orçamento) e reduzir a taxa de desemprego, porque: enquanto os jovens estão na escola não constam nas estatísticas de desemprego.

Todos sabemos que as crianças não são todas iguais: o coeficiente de inteligência é muito variável e quando a escolaridade obrigatória era de 4 anos, havia crianças que muito a custo conseguiam concluir esses 4 anos com sucesso; outras nem isso eram capazes, infelizmente.

Agora para que todas os jovens consigam concluir com sucesso 11 ou 12 anos de escolaridade básica só há uma solução: baixar drasticamente o nível de exigência no ensino ou muitos jovens não irão conseguir completar a escolaridade básica, e, sendo assim, ficam sem acesso aos mais modestos empregos: resta-lhes a marginalidade e, eventualmente, a criminalidade.

Por outro lado, baixando-se o nível de exigência na escola retira-se crédito ao ensino português e a própria entidade empregadora fica no futuro sem saber que candidato escolher para o emprego que tem para oferecer, porque todos irão exibir o 11.º ou 12.º anos, mas uns são mais e outros menos aptos. Lá terá que ser a Empresa a fazer o exame e a determinar a verdadeira aptidão dos candidatos. Não é isso que já hoje acontece?

O número de anos de escola não é a única via para o sucesso, apesar de poder ajudar. Conheço pessoas com a antiga 4.ª classe que tiveram e têm (porque ainda por cá andam) muito sucesso na sua vida profissional. Alguns deles dão até emprego a outros com habilitações muito superiores às suas.

Zé da Burra o Alentejano

De mochovelho a 16 de Setembro de 2007 às 21:50
Meu caro amigo "Zé da burra" . Em primeiro lugar agradecimentos pelo seu comentários, cumprimentos para si e também para a burra.
O seu comentário está no que julgo ser a linha da verdade, da verdade prática e também do meu pensamento sobre a questão. Mas, não sei se você já notou que os profissionais de qualquer coisa ou já não existem.....ou são puros amadores. ISTO PORQUE OS CURSOS TÈCNICOS BÁSICOS E MÉDIOS DESAPARECERAM..... Você hoje precisa de um serviço de canalizador e anda uma data de dias a pedir a um amador que vá lá a casa..... Eu sou engenheiro, tenho 4 anos de ensino primário + sete de ensino secundário e depois seis anos de faculdade mais um de estágio. Vivo num apartamento dificilmente pago e o meu canalizador vive numa óptima vivenda com uma bela piscina, perto de mim.....Não tenho inveja ! Acho isso bem! E ainda achava melhor se ele não fizesse tantas asneiras, ás vezes, por falta de profissionalismo....! Mas é o que temos e o que temos é o que é preciso mudar...sim , mudar, dignificando quem trabalha com as mãos e quem é competente! Precisamos de cursos básicos e médios gerando profissionais que preencham a espinal medula das actividades PRO-INDUSTRIAIS DESTE PAÍS...... Mas uma coisa destas se for possível, leva gerações e exige uma liderança forte ( mas democrática, claro).... e eu fico com muito pouca esperança. Um abraço!

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