Quinta-feira, 10 de Maio de 2007

E AGORA???

 

 NÓS E A "EDUCAÇÃO"

     O que quero dizer, na realidade é nós e a "CULTURA", mas receio que ao empregar a palavra cultura seja mal entendido. Tenho, pendurado na parede deste meu escritório, um pequeno quadro , imitando uma iluminura medieval que diz, em letra gótica e em francês: " A CULTURA É O CONJUNTO DE TODAS AS FORMAS DE ARTE, DE AMOR E DE PENSAMENTO QUE PERMITEM AO HOMEM SER MENOS ESCRAVO ". Não sei quem é o autor,  mas sempre acreditei que, seja ele quem for, quando escreve  "...AO HOMEM SER MENOS ESCRAVO", refere-se certamente a ser menos escravo de si próprio, das suas limitações, que é a pior escravidão que existe..... Deste modo, sou indefectivelmente um defensor da EDUCAÇÃO, desde que esta contribua efectivamente para formar este tipo de cultura individual. Por educação refiro-me aos métodos , aos sistemas e instituições que a sociedade põe á disposição do individuo para que este veja mais facilitada a aquisição de conhecimentos numa dada área..... enfim... um processo de iniciação.

   Todavia, um cantinho do meu cérebro diz-me que os indivíduos de uma dada sociedade, usam esses sistemas de educação que a sociedade põe á sua disposição, (ou antes, á disposição dos que podem pagá-la...), para a aquisição de conhecimentos que lhes permitam na vida, senão um lugar ao sol na primeira fila, pelo menos usá-los eficientemente como meio de subsistência. Mas o que quero dizer??? Considerem um individuo recém licenciado em filosofia,.... não consegue arranjar emprego como professor num sistema já saturado de docentes, e, para viver, tem que ser varredor de rua. Todos os ofícios são dignos se bem desempenhados e com honestidade, portanto , o nosso licenciado, varre pacificamente a rua e, quando acaba, vai para bibliotecas consultar as últimas novidades literárias e alimentar o seu espírito em detrimento da sua barriga. Ele é feliz....a cultura, obtida através da EDUCAÇÃO, traz-lhe a satisfação que necessita......e, QUEM ACREDITAR NESTA BALELA ESTÁ LOUCO, OBVIAMENTE......porque numa sociedade normal existe uma ligação intima entre a educação e a subsistência. Individuo que estuda, que se cultiva em determinada matéria, espera tirar daí uma ferramenta de sobrevivência. Mais, devido ás baixas percentagens de frequência universitária , ele espera, uma vez formado, vantagens pecuniárias e sociais em relação ao resto da população.

   Esta é a realidade : "UM INDIVÍDUO NÃO ESTUDA APENAS PARA SUA AUTO - SATISFAÇÃO",(a menos que seja rico, claro).....Por isso , é obrigação da sociedade, manter os mecanismos sociais, políticos ou outros, que propiciem um equilíbrio entre a oferta e a procura para indivíduos que saem das universidades com as mais diversas especialidades. 

   Temos hoje em Portugal, registados nos centros de desemprego, cerca de 50 000 licenciados, aos quais temos de adicionar uns largos milhares ( quantidade desconhecida...), de outros que arranjaram empregos muito abaixo das suas qualificações...

   Eu fico muito satisfeito quando leio na "propaganda governamental" que o número de pessoas com formação superior duplicou ou triplicou e que estamos a aproximar-nos dos padrões  europeus..... óptimo.... vamos ter o rapaz das fotocópias licenciado em direito, a senhora da limpeza em linguistica e a recepcionista com um mestrado em química. Excelente.... vamos ser super! E tudo por causa das estatísticas......

   Em face deste panorama, a frequência das universidades está a baixar notoriamente, num processo que tem algo de natural.....mas, quem paga as frustrações de milhares de pessoas que acreditaram que estudar lhes traria uma vida melhor????

publicado por mochovelho às 22:09
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3 comentários:
De paulo farias a 15 de Maio de 2007 às 03:23
Sim. Texto muito bom. Mas por que isso ocorre?
Nosso sistema capitalista não gera mais empregos. Precisamos mais de varredores de ruas ou de filósofos? Será que basta estudar e te um diploma para se ter um trabalho? Não sei se estou sendo pessimista, mas o mundo precisa mesmo de tantos profissionais que as universidades lançam no mercado todos os anos fazendo as mesmas coisas que outros milhares já o fazem ?Que diabos temos que fazer com tantos advogados e químicos?
De mochovelho a 16 de Maio de 2007 às 19:37
Aí está o ponto em questão , Paulo..... Houve em tempos países em que a cultura, obtida ou não pela educação, era um valor em si próprio, em alguns países socialistas , por exemplo. Nos países capitalistas as pessoas cultivam-se e adquirem conhecimentos em dada área por meras razões económicas, (e não para valorização espiritual perante si mesmos e para si mesmos). para ganhar mais e ter "melhor" futuro, e não vale a pena escamotear isto. Nos nossos países por exemplo existe , ou existia , uma grande diferença de estatuto social entre um licenciado e um não licenciado, enquanto que em países de alta produtividade e imaginação como a Inglaterra, um licenciado qualquer NÃO É UM DOCTOR X , mas apenas um mister x. E isto diz muito...... Um abraço.
De paulo farias a 17 de Maio de 2007 às 03:50
Amigo José,
Parabéns pelo tema abordado.
Não li o artigo do Umberto Eco que você fala.
Também não percebo a abrangência do que você escreve em relação ao segundo exemplo na cultura européia. (o primeiro caso do guarda de trânsito é apenas uma isenção, dispensa). Mas no que se refere ao caso do caucasiano, branco louro de olho azul, é lamentável a tolerância como se fosse dizer “eu suo superior a você, mas te SUPORTAR”.
Acho que temos que compreender a ilusão, a ingenuidade e a pobreza mental deste rapaz loiro de olhos azuis que você dá como exemplo. Acho que são os europeus que são diferentes e não têm culpa disso. Esta inferioridade e déficit cultural só foram superados com o uso da força, das armas, das invasões e do colonialismo. Suas catedrais só foram construídas usurpando estes povos a bala. Agora o mundo mudou. São os asiáticos, os negros africanos e os mestiços latinos que invertem a antiga lógica. Não é a toa que no teu post anterior falas de professoras de lingüística fazendo faxinas, pois os moçambicanos não limpam mais as latrinas européias. A ilusão de que são seres superiores pelos olhos azuis, que pelo teu comentário ainda é forte na Europa, vai cair por terra nos próximos anos. Mas nós, latino-americanos, estamos de portas abertas para receber os imigrantes europeus. Não tenham medo. Seremos tolerantes.

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